Por que fazer o que você gosta nem sempre melhora a depressão?

Na depressão, vejo que uma queixa muito comum é: “Eu até faço coisas que gosto, mas continuo me sentindo vazio(a).”

E isso não significa falta de esforço, preguiça ou ingratidão. Significa algo importante: nem todo tipo de atividade produz o mesmo efeito emocional, especialmente quando a depressão está presente.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, fazemos uma distinção essencial entre dois tipos de atividades. O primeiro grupo é o das atividades que oferecem satisfação imediata. Assistir a um filme, comer um lanche, jogar videogame, ficar no celular. Elas aliviam por alguns minutos. Funcionam como um descanso mental, um anestésico temporário.

Mas aqui vai uma compreensão importante: alívio não é o mesmo que recuperação.

O segundo grupo envolve atividades que geram prazer de outra forma: pela sensação de realização, domínio, competência e dever cumprido. Tomar banho, trocar a roupa, arrumar o quarto, concluir uma tarefa, entregar um trabalho. Elas raramente parecem convidativas no início, às vezes parecem até pesadas demais, mas os efeitos emocionais ao serem concluídas são gratificantes.

A depressão costuma sussurrar: “Não adianta”, “Você não dá conta”, “Depois você faz”. E quanto mais você escuta, mais a inércia cresce.

A depressão enfraquece a ação, e a falta de ação fortalece a depressão.

Atividades apenas prazerosas aliviam o desconforto imediato, mas não restauram a autoestima. Já as atividades de realização constroem algo importante por dentro. Cada pequena ação concluída envia uma mensagem ao cérebro: “eu ainda sou capaz.”

É como a diferença entre se aquecer com um cobertor fino e reconstruir o aquecedor da casa. Um ajuda por alguns minutos. O outro muda o ambiente. Por isso, você precisa ter em mente que só fazer o que gosta não é suficiente, é necessário fazer o que vai te trazer a sensação de dever cumprido também.

Importante dizer: isso não tem nada a ver com produtividade excessiva ou cobrança. Na depressão, o critério não é fazer muito, é fazer o possível. Adaptado ao dia de hoje.

O que hoje parece pouco pode ser exatamente o suficiente.

Na terapia para depressão, esse processo é construído passo a passo. Um psicólogo especialista em depressão ajuda você a escolher atividades que devolvam, aos poucos, a sensação de controle e autonomia que é tão prejudicada na depressão.

Pense sobre isso: a motivação geralmente vem depois da ação, não antes.

Gabriel Sena

Gabriel Sena

Psicólogo clínico e pós-graduando em Terapia Cognitivo Comportamental.

Compartilhe nas mídias:

Comente o que achou:

Gabriel Sena Reis Oliveira • Psicólogo CRP 03/20886. Todos os direitos reservados, 2026 ©